01/12/2008 15:33
FUENTES, FRIDA E SARAMAGO
FRASES SOLTAS NO AR
Já disse que me considero um privilegiado por ter testemunhado numa terça e numa quinta feira as leituras de Carlos Fuentes e José Saramago. Entre ambas oportunidades, na quarta feira, o governo mexicano ofereceu a um grupo de representantes das televisões públicas ibero-americanas, um jantar nos jardins de Frida Kahlo e uma visita à exposição das cartas de Diego de Rivera, até então fechadas num banheiro cimentado da casa. Estive presente a tudo.
Umas frases ditas e outras escritas ressoaram em minha cabeça:
Carlos Fuentes-
Pedem-se contas àqueles que cantam com a boca para que creiam com o coração e àqueles que crêem com o coração para que se manifestem com as obras.
Frida à Rivera-
Tu me colheste destroçada e me devolveste inteira.
Saramago-
O próximo é mais complicado do que toda a espécie humana.
O que eu ainda almejo? O tempo.
Não conspirei para triunfar.
Se eu tivesse morrido antes de conhecer a Pilar, teria morrido muito mais velho do que aquilo que sou.
Perceber o que o livro quer e o que o livro queria ser alegra o escritor.
enviada por Jorge da Cunha Lima
30/11/2008 20:00
MARCELO PORTUGAL GOUVEIA - DO SÃO PAULO
UM HOMEM INTEIRO
"Tudo o que voce for, seja inteiro,sem divisão e sem dúvida" Ibsen
Os jovens ficam muito chocados quando morre um colega de sua geração. Posso afirmar que nós velhos também ficamos, apesar de ser mais natural que isso aconteça. Contudo, raramente a morte nos convence da sua oportunidade.
Este ano o ceifeiro tem sido implacável. Desde a morte inesperada da Ruth Cardoso, a morte trágica de Joaquim Guedes, a morte serena de Silvio Pereira, a morte de Tereza Lara e ainda outros, vimos sofrendo essas baixas em uma geração tão cheia de ideais e mesmo de princípios.
Hoje, quando estávamos, alguns muitos, entusiasmados com o jogo do São Paulo, recebi a triste notícia da morte do Marcelo Portugal Gouveia, do São Paulo Futebol Clube até o fundo do coração. Foi presidente do clube. Sofreu e se alegrou sentado no banquinho em milhares de jogos. Sempre dizia que, quando morresse, queria ser velado no clube bem amado. Pois foi enterrado neste domingo, poucas horas antes do jogo. Seu féretro não pode sair do Morumbi, só o espírito. Mas estavam lá todos os amigos do clube e da vida, porque além de torcedor exemplar, foi sempre um bom amigo. Juvenal, Marco Aurélio, Abílio, os jogadores que choraram no vestiário, e milhares de gentes.
Não ganhamos o jogo. As alegrias não podem se confundir com a morte. A vitória foi adiada.
Mas quero dizer uma única coisa. Marcelo foi sempre um homem inteiro. O profissional, o pai, o torcedor e o amigo. Tem no DNA, do velho Portugal e da Zenaide, essa virtude rara de ser o mesmo, aliás, como suas irmãs, Gilda e Silvinha.
enviada por Jorge da Cunha Lima
29/11/2008 16:48
SARAMAGO E FUENTES
SEMANA ABENÇOADA
Posso considerar-me um bem aventurado. Na terça feira desta semana, na Ciudad de México e nesta quinta Feira, em São Paulo, assisti, respectivamente, às palestras de Carlos Fuentes e José Saramago.
No Auditório Nacional do México, em comemoração aos oitenta anos de Carlos Fuentes, o escritor realizou uma leitura de capítulos de seus livros antecedendo essas leituras com apreciações pessoais sobre as obras e sobre a vida. 3.500 pessoas em silêncio, um silêncio ritual e emocionado, sorvendo cada palavra de seu ídolo vivo e consagrado. O auditório estava repleto de brancos, mestiços e índios. Desde a revolução a metade de todos os espaços culturais está reservada gratuitamente para o povo. No Teatro Paulo Autran, do SESC Pinheiros, José Saramago teve o lançamento internacional de seu último livro, A Viagem do Elefante. Auditório repleto de brancos. No Brasil ainda não houve a revolução do acesso cultural. Mas Saramago estava deslumbrante. Falou com propriedade o Danilo do Sesc, falou o editor Schwarcz, com emoção e também falou Pilar, com a graça que Deus lhe deu e a qual ela acrescentou sua criação pessoal. A consagrada Corveloni " representou" com talento um bom trecho do romance, prejudicada pelo microfone invisível que insistia em comparecer com chiados.
Por fim, falou Saramago. Toda a eloquencia da sabedoria e da qualidade de uma vida literária fluiu da voz rouca do escritor, nesse retorno à vida após longa internação hospitalar. Foi um privilégio ouvir o relato do gênio sobre a gênese dessa obra alegre e singular. Foi incrível ouvir do ancião que, depois das glórias literárias a única coisa que ele afirma desejar é tempo, mais tempo e vida, para escrever ainda e amar até o fim sua Pilar e seu pilar.
enviada por Jorge da Cunha Lima
27/11/2008 16:10
SANTA CATARINA E O ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
UMA ÉTICA DO SOFRIMENTO
As fotos de primeira página dos jornais brasileiros são impressionantes. Cidades inundadas, cidadãos semi-afogados, mercados sendo saqueados. Nunca fiz isto em minha vida, mas todo mundo está fazendo. Logo, não teremos mais mantimentos.
Meu filho me alertou: - Pai! Parece o livro do Saramago. O caos produzindo um comportamento inédito. Todo mundo se igualando na barbárie produzida pelo sofrimento.
De fato, o caos é o pior dos conselheiros: na cegueira, nas guerras e nas catástrofes da natureza. O maremoto que atingiu Nova Orleans mostrou-nos a face desconhecida dos Estados Unidos, onde uma miséria africana parecia impossível de ser constatada. Os mesmos desesperados nas ruas, abaixo da lei e de qualquer ética. Bangladesh é uma tormenta permanente, na qual qualquer tipo de ordem sucumbe aos imperativos da miséria. As guerras destroem todo o senso moral, seja nas trincheiras, seja na retaguarda das cidades, dos quartéis e dos comandos políticos.
Agora foi a vez do Vale do Itajaí. As pessoas não são responsáveis pelo dilúvio que, em duas horas, fez transbordar os rios e destruiu símbolo mais concreto de vida que são as moradias das pessoas. Pode ser que algumas pessoas estivessem morando em lugares de risco, mas não se pode dizer isso de uma cidade inteira. A velocidade da catástrofe surpreendeu da defesa civil. A água padronizou as consciências humanas e materiais. O sofrimento nos transforma em bichos, a desordem, numa selva.
Nesse contexto só restam algumas poucas alternativas: verbas públicas e solidariedade humana.
enviada por Jorge da Cunha Lima
24/11/2008 12:12
MEXICO - A DISTÂNCIA ENTRE A CULTURA E A POLÍTICA
O SERVIÇO E AS DISTÂNCIAS NO MÉXICO
Todas as impressões que temos de um país são instantâneas. Isso nos leva a grandes erros de interpretação. Generalizamos demais e cometemos, não raro, injustiças de interpretação.
Cada vez mais acho que a prestação de serviços, no México, tem desempenho modesto. Mesmo em hotéis de quatro ou cinco estrelas os empregados nos tratam com uma distância monumental. Quase não olham para os clientes, respondem em voz baixa, com alguma má vontade e sorriem muito pouco, a exceção das arrumadeiras. Em primeiro lugar pensei que falta um bom SENAC para a formação desse tipo de pessoal. Aos poucos fui percebendo que não. Trata-se de uma distância enorme, e acentuada a cada dia, de nós, da burguesia branca. Não é uma questão de preconceito declarado, mas uma cultura enraizada no DNA, que carrega uma revolta secular contra o que o nosso Cláudio Lembo denominava: elite branca e cruel.
Nos países em que a população indígena manteve uma razoável preservação da raça e cujo passado histórico induz a um orgulho justificável, como o México, o Peru, a Bolívia, a Guatemala e tantos outros de colonização espanhola, a exceção da Argentina, os índios assimilaram em boa escala a cultura européia. Mesclaram essa cultura com os próprios conhecimentos e formaram um amálgama que produziu uma coisa muito positiva, no plano cultural.
Contudo, essa simbiose que marca a cultura da América Espanhola, como afirmava Carlos Fuentes, não produziu o mesmo efeito na escala política e econômica. Aí a distância continuou profunda e impermeável. Se nas telas de pinturas, temos o mesmo valor, assim como na música, na dança e até na poesia popular, o mesmo não acontece no emprego, no comercio e na produção industrial. Essa distância desqualifica a ambos os segmentos. Todo mundo sai perdendo na geografia, na política e na economia das discriminações. A aproximação cultural pode ser um bom caminho para uma nova revolução mexicana.
enviada por Jorge da Cunha Lima
24/11/2008 04:46
UM SUCESSOR PARA CHAVES?
LEDEZMA NÃO É UM DIREITISTA RAIVOSO
Soube, por uma amiga historiadora, com grande vivência política na América Latina, Caribe e Espanha, que Ledezma, o vencedor de Caracas, está se preparando para uma sucessão democrática de Chaves. A oposição, nas recentes eleições, esperava ganhar mais estados; não conseguiu, mas ficou com estados importantes e com a prefeitura de Caracas, centro político do país. Maria Eugenia, que conviveu em alguns projetos sociais com o próprio Obama, me afirmou que Ledezma, que tem cinqüenta anos, é um homem de centro, convicto e que possui uma grande capacidade de diálogo e conciliação. Não pretende fazer de sua carreira um desafio a Chaves, mas um elemento de consolidação política da Venezuela. Não será fácil ao atual presidente consolidar uma política populista, com o caixa baixo. O petróleo é a única fonte da economia venezuelana e seu barril baixou para cinqüenta dólares.
Contudo, o mais difícil na Venezuela é produzir uma ideologia política e econômica para enfrentar a crise mundial. Nem a esquerda de Chaves, sem petróleo para vender caro, nem a ultra direita (agora órfã da decantada eficiência econômica do capitalismo) e muito menos o centro do novo protagonista, Lezdema, tem qualquer alternativa macro econômica ou financeira, para que a Venezuela, sob o comando de Chaves, possa atravessar a crise com um mínimo de segurança.
Importante é que a Venezuela se comporte como um país democrático. Que todos se unam para superar a crise e permitam que a democracia não seja violentada no futuro próximo e remoto.
enviada por Jorge da Cunha Lima
23/11/2008 13:09
A CRISE E O MOTORISTA MEXICANO
NINGUÉM ESCAPA DESTA
Tomei um táxi no aeroporto Benito Juarez, em Cidade do México, e logo fui abrindo um papo com o motorista. Perguntei sobre a crise e ele me respondeu: Já chegou. E o pior. Todos nós vamos pagar essa conta. Como eu desse alguma corda, prosseguiu animado: - Os gringos armaram essa e deviam pagar a conta. Mas en los Estados Unidos, quando o negócio dá lucro o capitalismo ganha, quando dá prejuízo todos os paises do mundo vão pagar. Eles descobriram essa forma de socialismo. Você não acha que a coisa vai melhorar com o Obama, perguntei. - Vai mudar o estilo. O sistema continua o mesmo, respondeu-me com bastante convicção. E partiu para a digressão, com a cabeça de cinco quilos bem colada no pescoço, - O mundo é todo igual. Ninguém está por fora. Se a bolsa dos gringos cai lá em Nova York, temos menos cliente aqui. O valor do peso está caindo muito. Comprava-se um dólar com dez pesos. Agora já está em quinze. Isso o senhor poderia me explicar, porque vejo tratar-se de um homem distinguido. Como num país falido, que estaria lá embaixo se as outras nações tivessem força, a moeda pode subir durante a crise. Pode me explicar, por favor. Respondi com humildade que eu também não entendia. Então, comecei eu a divagar, no percurso entre Benito e o Holliday Inn de Zócalo. Quem nos faz entender ainda menos é a mídia. Nunca, ninguém nos advertiu sobre os riscos da globalização de uma macroeconomia liberal. Todos os editoriais exaltavam o enriquecimento do mundo, apesar da péssima distribuição de rendes. Tanto quanto os heróis da novela, os meninos bem sucedidos das bolsas ou das mesas de fundos eram considerados gênios. Os executivos tinham todo o direito de enriquecer com ganhos em atividades temerárias. Nem o Grinspun chamou a atenção dos malandros. Ninguém culpou ninguém, a crise fica por conta da conjuntura. Em vinte dias conseguiram reunir dois trilhões de dólares para salvar o sistema financeiro. Não deram um tostão para salvar a biosfera. Quando o carro parou em frente ao hotel eu ainda estava discursando. O motorista apenas falou O senhor é muito caloroso.
enviada por Jorge da Cunha Lima
22/11/2008 12:00
A DUQUESA
UM FILME PARA INGLÊS VER
O absolutismo do Século XVIII, pouco antes da Revolução Francesa, não era apenas político. Imperava com o mesmo ímpeto na vida familiar. Não foi diferente no castelo do Duque de Devonshire, quando levou ao altar a bela Georgina, com a finalidade precípua de lhe dar um herdeiro homem. Georgina era um barato. Conquistou todo o mundo: as mulheres, ao propor-lhes uma renovação completa da moda e do vestuário; os homens, ao discutir política e revelar uma precocidade enorme, sobretudo com a ajuda do jovem Grey, seu apaixonado. Georgina crescia em idade e sabedoria, sem, contudo, brindar o intragável Duque de Devonshire com um filho homem. Só paria mulheres.
O duque tratava-lhe mal, enfiou-lhe nas fuças e na convivência uma amante, Lady Foster, e seus três filhos homens. Quando a duquesa, mulher avançada, pretendeu fazer um pacto, permitindo-se abertamente conviver com o amante, Lord Grey, o Duque fechou o tempo e a jovem esposa num quarto onde praticamente a estuprou de novo. Veio um filho homem e a única gentileza do duque, em êxtase, foi dar-lhe um cheque quase em branco para que ela gastasse como bem entendesse.
A duquesa insiste em acalentar o Grey na corte do marido, como ele fazia com a sua amante. O Duque ficou irado. A duquesa confessou-lhe que estava grávida de Grey. O Duque internou-a numa fazenda por 10 meses, tirou-lhe o filho e remeteu-o ao general Grey, pai do pai. Georgina foi instada a voltar para o Castelo de Devonshire e lá viveu até o fim da vida, ao lado dos filhos e de Lady Foster. Morreu e Lady Foster virou Lady Devonshire. Grey casou com outra mulher, teve filhos e uma sobrinha que, por conveniência era sua própria filha. Respeitando as regras e a tirania, virou primeiro ministro da Inglaterra.
Tudo isso hoje em dia, num cinema do Iguatemi, repleto de jovens punk, pode parecer idiota, mas não é. Fino desempenho de Finney, fino desempenho da duquesa. Uma verdadeira bíblia de prepotência e preconceitos. Um belo mostruário de hipocrisia e personalidades. Só mesmo uma duquesa do Século XVIII.
enviada por Jorge da Cunha Lima
21/11/2008 12:10
O DIA DA VINGANÇA NEGRA
ONTEM - O FERIADO MUNICIPAL DO NEGRO
Tudo estava preparado para que a mais exuberante exaltação da civilização branca, Kaká e Cristiano Ronaldo, se transformassem num Aquiles da Ilíada de Homero. Mas naquele subúrbio de Brasília, depois do seis a dois, o herói não foi Kaká nem a sua versão portuguesa, o belo Cristiano Ronaldo. Foi Luis Fabiano, um mulato mais modesto, contudo com o timbre visual de Obama.
O século está mesmo para os negros. Num único mês: o piloto inglês negro, o candidato à presidência dos Estados Unidos negro, o marcador do Bezerrão negro.
Não preciso falar que de cada três campeões brasileiros, em qualquer modalidade, dois são negros; não preciso lembrar que de cada três cantores, dois são negros; de cada três grandes rapper(s), 3 são negros.
Não preciso falar que o museu mais instigante da nova safra museológica paulista é o Museu da Raça Negra, do Manoel Araújo, um dos maiores escultores brasileiros negro.
Por contraste, também poderíamos dizer que o maior número de desempregados é de negros, que os piores salários vão para os negros, que o menor números de universitários também é de negros e que na fotogenia do crime o número de presos também é de negros, enquanto 90% dos pornô heróis das novelas são brancos.
Os brasileiros são abertos à raças que vêm de fora e muito fechados à raça negra, que vem de dentro. Não porque não haja uma afetividade história e uma sensualidade carnal com essa raça de babás e mulheres lindas. Mas porque o brasileiro tem preconceito contra o pobre, e o negro, no Brasil, é estrutural e historicamente pobre. Imigrante rico no Brasil é quatrocentos anos (basta ler as colunas sociais). Negro rico é recebido com aplausos e festas. Até terrorista rico aparece nas banheiras da CARAS.
O maior preconceito de uma sociedade é não dar oportunidade ao outro. É manter e preservar o gueto neoliberal dos que já estão inseridos: sejam brancos, negros ou amarelos. E no Brasil, quem tem menos oportunidades de inserção social, educacional, financeira e política, são os negros.
Enfim, só há a comemorar a virtude dos negros, e o esforço de se transformarem em exceção, quando há oportunidade. A generosidade dos brancos fica para outra data.
enviada por Jorge da Cunha Lima
20/11/2008 18:40
SUZY, VICK E PENÉLOPE CRUZ
WOODY ALEN E A VIRTUDE DA PAIXÃO
O que nos preserva do envelhecimento é a paixão e uma relativa capacidade de assumirmos riscos. Isso quer dizer que o burguês, cuja capacidade de riscos é mínima, envelhece muito cedo. Nós, os apaixonados crônicos, damos prejuízo ao seguro.
Já na juventude, a paixão nos amadure e nos liquida. Latimos, sofremos e envelhecemos um pouco, diante de uma paixão fomentada ou inesperada.
Para entender melhor, paixão é aquele sentimento no qual, em presença ou ausência de seu objeto, a boca do estômago incendeia como um etanol de carne,
O único artista contemporâneo que coloca a paixão no seu devido lugar é o Woody Allen. Não trata a paixão pelas suas causas, mas pelas suas conseqüências. Os apaixonados de Woody Allen passam da ulcera ao bofetão com uma espantosa velocidade. Não leva desaforo para casa nem para a cama.
Mas a paixão é um sentimento com geografias bem determinadas: a paixão de uma espanhola difere, na gestualidade, da paixão de uma americana em férias na Espanha. A de uma loira de olhos ambivalentes, entre o azul e o verde, não tem nada a ver com a paixão das morenas, mais evangélicas, quase Wall Street.
A impulsividade da paixão não supera as raízes antropológicas da mente. O que unifica o mundo de Vick e Cristina em Barcelona são duas coisas: a paisagem urbana mais sedutora deste começo de século e o diálogo de Woody Allen que fala por todo mundo. Assim, todos os personagens desse diretor são nteligentíssimos, mesmo quando falam em nome de um casal medíocre de freqüentadores de antiquário.
Entre Vick e Cristina realça a pistola de Penélope Cruz, vulgo Maria Emília, genial de beleza,a paixão em carne e osso. Detalhe. A língua da paixão é o espanhol, da mesma forma que o italiano é a língua do melodrama e o inglês, a língua da tragédia. Em espanhol, porque se recusa a falar inglês, Maria Emilia prova que a paixão só se resolve no triângulo amoroso, não dá para viver a paixão a dois, acaba na porrada.
É tal a exaltação da figura feminina neste filme que me dispenso de falar do herói, um tremendo bom caráter.
enviada por Jorge da Cunha Lima
18/11/2008 14:28
AVISO AOS NAVEGANTES
UM ESTADO PARALELO NO BRASIL
Vinte e três homens armados e bem escoltados assaltaram um condomínio fechado de Segurança absoluta, com muros altos, vigias, cerca eletrônica etc, etc. Os assaltantes estavam garbosamente vestidos com uniformes de polícia civil e afirmaram aos porteiros estarem em caça de drogados, o que abriu-lhes as portas do condomínio.
Isso já está se tornando corriqueiro, como assassinar e estuprar adolescentes, assaltar bancos, caminhões e até mesmo carros-fortes.
Trágico é o que está por detrás disso tudo. Os grupos criminosos possuem um serviço de inteligência mais eficiente do que a polícia, sabem quem, quando e onde assaltar. Estão melhores aparelhados do que a política. Trabalham sempre com armamentos de última geração. Possuem um sistema de comunicação que, além de interceptar as freqüências policiais, impedem o acesso dos policiais a seus códigos. Utilizam-se de carros blindados em ataques mais sofisticados e ensinam os neófitos a usarem carros roubados durante a ação criminosa. Mais do que isso: têm comando unificado. Utiliza-se de processos judiciários sumários dentro da corporação. Seus recursos financeiros ainda não foram afetados pela crise, pois não costumam aplicar seus fundos nas bolsas de valores.
Assim, constituem um aparato de poder paralelo ao poder constitucional. Não um poder derivado da proliferação das individualidades criminosas, mas um poder real derivado do sistema de tráfico, produção e circulação de droga. O que unifica o exército paralelo do crime não é nem mesmo a manipulação ou uso conspícuo do dinheiro, é a arte da manipulação social, e o poder que disso deriva. Um bom ponto de drogas confere status ao distinto. A arapongagem dá poder dentro da geografia do crime. Um mensageiro que leva droga do ponto ao consumidor, geralmente menor de idade, transforma-se no chefe da família, jovem provedor que é. Assistência social , médica, financeira, para sobreviver, construir barracos, deslocar-se, tudo isso é garantido pelo estado paralelo do crime.
Há uma geografia confinada, uma espécie de gueto inviolável e uma geografia expandida. Há ainda a geografia e o quartel general do crime, ás vezes dentro das penitenciárias de segurança máxima.
Isso tudo quer dizer que o estado brasileiro já perdeu o pé. E, junto, perdeu a consciência do problema, que se transformou em manchete permanente do Jornal Nacional. Tanto que não toma providências adequadas. Beira o ridículo o conjunto das ações policiais e militares.
Quando julgou conveniente acabar com a subversão e o terrorismo, foi implacável, quase eficiente, apesar dos métodos utilizados. Contra o crime comum é de uma incompetência notável, em todos os níveis: federal, estadual, municipal e condominial.
Hoje deixo este meu aviso aos navegantes neste utensílio democrático que é o BLOG.
Amanhã, é possível, que não se possa nem mesmo navegar, sem a autorização do PCC.
enviada por Jorge da Cunha Lima
17/11/2008 16:00
QUEM TEM MEDO DO TRANSPORTE DE MASSA?
Agora andam reclamando que o governo estadual está investindo mais de 10 bilhões de reais em transporte, evidentemente a maioria dos recursos para transporte de massa.
Boa parte do dinheiro vai para trens suburbanos, hoje com dinâmica de metro e, em futuro próximo, integrados ao mesmo. Outro quinhão vai para o metro propriamente dito. Uma parte do bolo vai para o rodo anel, no setor sul. Cada uma dessas destinações pode ser considerada prioritária na vida desta sofrida cidade. O trabalhador não agüenta mais gastar três a quatro horas por dia em deslocamentos obrigatórios.Trem e metro haverão de amenizar essa situação. A cidade vive congestionada. O rodo anel deverá aliviar essa situação crônica.
No entanto, tem gente reclamando. Ainda hoje, a Folha de São Paulo, noticia que a verba de saúde diminuiu e que a de transporte aumentou. Uma coisa não tem nada com a outra. Ninguém deseja que a verba de saúde diminua e nem a de transporte. O governo explica que a da saúde diminuiu porque os hospitais implantados no orçamento anterior não precisam mais de verbas para construção. Esse é um assunto que deve ser discutido no quesito próprio. Precisamos acabar com a mania de embaralhar o orçamento, só para manter a crítica a flor da pele.
Há um atraso na infraestrutura do país. Se não fosse a crise, logo teríamos um novo apagão. A Sabesp anuncia que só em 2018 teremos toda a área da cidade coberta com rede de esgoto. ETC.ETC. ETC. Assim, não podemos amaldiçoar nenhum tipo de investimento em infra.
enviada por Jorge da Cunha Lima
16/11/2008 14:39
A LÓGICA DA GUERRA INÚTIL
AINDA OS THIBAULT.
Não fiz os comentários prometidos sobre os dois últimos volumes do livro de Roger Martin Du Gard. Esses dois volumes retratam o período que antecedeu a primeira grande guerra mundial e o desenrolar da mesma. Não vou comentar o livro, mas algumas informações que sempre estiveram perdidas no meu conhecimento.
Ninguém queria a guerra, somente os governos a serviço de altos interesses industriais que então já dominavam a economia e a política. A imprensa transformou em nacionalismo o que era uma aberração, de ambos os lados da luta. A internacional socialista era completamente contra a guerra até a morte de Jaurés. Aderiu completamente quando a Alemanha mobilizou suas tropas. A guerra só acabou e foi ganha após a intervenção das tropas, das ambulâncias e dos equipamentos norte americanos. O Presidente Wilson, contra o pensamento dos dirigentes europeus, elaborou todo o ideário da paz, propôs a Sociedade das Nações, entre outras instituições que haveriam de arbitrar os belicosos reincidentes. Profetizou a criação da União Européia.
Outra informação, esta da trama romântica: Jacques se matou jogando folhetos contra a guerra de um avião que explodiu; Simon ficou cego no bombardeio de um trem; Daniel amputou a pernas e fixou impotente; Roy, o nacionalista exaltado, morreu no primeiro combate e Antoine foi intoxicado pelos gases mortais dos alemães, que violentaram a ética da guerra. Percebe-se que todos, além do corpo, devastaram o caráter, numa guerra estúpida, prevista para durar meses, mas que durou 4 anos. Mas todos acreditavam que nunca mais haveria guerra na Europa. A crença se extinguiu em 1939, quando se iniciou a mais cruel das guerras.
enviada por Jorge da Cunha Lima
14/11/2008 20:50
DE COMO O PLANETA VAI PRO BREJO
NÚMEROS ESTRANHOS
Embora não seja tolice insistir, creio que não preciso falar das conseqüências do aquecimento da Terra. Mas podemos falar da inércia das nações para evitar a catástrofe decorrente. A reunião do Rio de Janeiro, o Protocolo de Kioto e todas as medidas propostas pelos estadistas e cientistas mais lúcidos, ficaram no papel quando aceitas e até fora dele quando recusadas. Pois bem. Hoje se estima que a mundo necessitaria de cerca de 1 trilhão de dólares para enfrentar e resolver o problema do aquecimento. Nenhum país até hoje se propôs a dar um décimo dessa quantia para iniciar as pesquisas e adotar as providências mínimas. No entanto, em menos de um mês, os paises desenvolvidos já colocaram à disposição do sistema financeiro quase dois trilhões de dólares para evitar o colapso das finanças capitalistas. O sistema financeiro, para esses estadistas, é muito mais importante do que a própria preservação da vida no Planeta. Isso, em termos sociológicos poderia ser chamado alienação, mas em termos humanos é apenas uma burrice monumental.
Outro número interessante é que apenas 1 milhão e 500 mil pessoas detêm 70% da riqueza de um mundo com 4 bilhões de pessoas. Essa desproporção inviabiliza qualquer processo de civilização. A lógica da desigualdade desafia todos os projetos de ajuste econômico e financeiro.
Como o raciocínio contemporâneo inviabiliza qualquer raciocínio novo, até mesmo pela falta de alternativas aceitas pela mídia, ficamos onde estamos.
Será que a crise vai mudar isso, ou ficaremos como dizia Lampeduza, no Gatopardo de Visconti: Vamos mudar tudo, para que tudo fique exatamente como está.
enviada por Jorge da Cunha Lima
13/11/2008 18:33
KASSAB FECHA COM O CENTRO (HISTÓRICO).
gRANDE NOTÍCIA PARA O CENTRO
Gilberto Kassab se inaugurou politicamente quando implantou o projeto Cidade Limpa. Demonstrou coragem, decisão e, em pouco tempo, a cidade estava livre de painéis corrosivos que enfeavam a cidade e estimulavam o consumo conspícuo. A grita dos interessados não foi pequena, mas o apoio da sociedade calou-os. É sempre assim, as decisões de conteúdo popular acabam recebendo a apoio da população.
Eleito, Kassab assumiu um surpreendente compromisso com o centro histórico de São Paulo. Afirmou que nesse mandato, como prefeito eleito diretamente pelo povo, fará da recuperação do centro uma bandeira igual à da Cidade Limpa.
Essa notícia é promissora para todos os cidadãos que há mais de 15 anos trabalham na Associação Viva o Centro, lutando para a recuperação do Centro. Para os militantes das 45 Ações Locais, que são verdadeiros zeladores de suas ruas e praças. Para todos os afiliados da Associação Comercial que lutam pelo Centro em suas lojas ou que trabalham nelas. Enfim, esses dois milhões de paulistanos que vão trabalhar ou cruzam o Centro todos os dias, do Parque D. Pedro à Praça da República.
Kassab sabe tudo o que o Centro precisa, pela sua experiência de prefeito e pelas demandas e sugestões constantes da Viva o Centro. A única coisa que podemos sugerir é que o prefeito desburocratize a gestão do Centro, separando seu projeto do andamento da rotina administrativa da cidade.
O Centro é uma emergência emblemática. Tudo o que se faça por ele repercute em dobro. Se a promessa for cumprida pelo Kassab, o prefeito terá o seu terceiro nascimento político, pois o segundo foi a própria eleição.
enviada por Jorge da Cunha Lima
12/11/2008 13:19
O IAB VETA ARQUITETOS INTERNACIONAIS
NACIONALISMO CULTURAL???
Não há nada mais indispensável do que uma consciência de nação. Sem isso ficamos fora do mundo e do destino que a ciência moderna conferiu aos povos. Contudo, nada mais ridículo do que o nacionalismo cultural. A reserva de mercado para a criação artística ainda é mais idiota do que a reserva de mercado para produtos de informática. Bitola, limita, consagra a mediocridade.
Não é uma boa homenagem que ao IAB presta ao seu presidente anterior, o Arquiteto Joaquim Guedes, essa de reclamar contra a contratação de arquitetos estrangeiros para projetar o prédio da Companhia Estadual de Dança. Guedes participou de inúmeros concursos internacionais de arquitetura, inclusive em Milão, e ninguém perguntou na entrada se ele era brasileiro ou chinës. Niemayer e Paulo Mendes da Rocha têm projetos em vários países do mundo. Nenhum deles tem passaporte da União Européia.
O escritório Suíço que projetou o Ninho para as Olimpíadas da China, possui todas as credenciais para projetar o grande Bale Estadual.
Berlim é um show-room de arquitetos internacionais.
São Paulo, por vocação e destino, já é uma cidade global. Só falta expurgar algumas caipirices. São Paulo tem a característica de se integrar por dentro. Absorve raças com uma espantosa presteza. Em 1920 60% de seus habitantes eram italiani nati. O teatro Municipal ensinou a ouvir óperas como as cantinas e as pizzarias nos ensinaram a comer massa.
Agora querem impedir a entrada de Marco Pólo na cidade invisível, para que ela não se revele nunca ao mundo. É demais.
enviada por Jorge da Cunha Lima
11/11/2008 12:30
CRISE: A HORA E A VEZ DO ESTADO
QUANDO O MERCADO PEDIU SOCORRO
Existe uma crise que pertence a todo mundo: a crise da macroeconomia, anunciada e proclamada pela mídia. Tem um lado psicológico que se alastra mais depressa do que a crise real. Esse lado, contudo, ajuda a consolidar a crise real. Todo mundo se julga no direito de glosar as informações, entenda ou não entenda de economia. Assim, a crise cobre o céu como um grande guarda chuva negro e nos impede de ver o mundo real.
Existe uma crise que pertence a cada um: é quando baixa o desemprego, para uns; quando baixam os valores de suas carteiras, para outros; quando se perde patrimônio mobiliário e imobiliário, como nos Estados Unidos; quando se perde o crédito necessário para tocar os negócios ou quando se é demitido. Então, a crise veda os olhos de todos como uma catarata.
Nesta hora, o estado, tão desprezado nas últimas duas décadas, surge como uma força salvadora e até renovadora dos costumes. Salvadora porque coloca suas reservas para salvar o sistema. Renovadora porque é a única autoridade capaz de impor uma disciplina reguladora.
A tirania do mercado fica abolida por uns tempos, não sem o temor de que o estado exerça uma tirania análoga, em favor dos mais fortes.
A fábula, contudo, nos sugere uma ética renovadora.
O estado chinês, americano ou brasileiro, não pode sacrificar suas reservas e o correspondente sacrifício da sociedade para salvar as instituições financeiras imprudentes e os empreendedores temerários. Precisa, no mesmo esforço salva vida, salvar a própria sociedade. Criar uma política de financiamento sem extorsão. Uma distribuição de rendas compatível com as necessidades do social. Controlar a ambição e regulamentar os ganhos. Utilizar a arrecadação em favor do desenvolvimento geral da nação.
Não é fácil, nem ao estado, nem ao mercado, conciliar essas virtudes indispensáveis.
Paciência. Agora chegou a vez do estado, na sociedade capitalista. E como o estado é a representação política da sociedade vamos fiscalizá-lo, senão, não haverá outros muros para derrubar.
enviada por Jorge da Cunha Lima
10/11/2008 12:30
O 007 DA VINGANÇA
O famoso agente inglês de Fleming era um homem elegante, gentil e conquistador emérito que compensava na cama, com belas mulheres, as agruras de um super-homem de smoking.
A dureza dos nossos tempos transformou James Bond. Bond substituiu o leito erótico pelos caminhos da violência e da vingança. Seus feitos absurdos de outrora agora só tem um nome: a morte. Craig, um perfeito matador, extermina todos os que se colocam no seu caminho, um caminho de ódio. Seu único amor, tão abstrato quanto a recordação, morreu ou se deixou matar, o que instiga James a manipular todos os interesses da Coroa Britânica em favor de seu projeto mortal. Nem a bela companheira que se insinua no enredo, mulata de olhos verdes, consegue encantá-lo. Mulher que deixaria louco até o batista George Bush. Mas o que ela procura é também a vingança contra um ditadorzinho latino americano., o que consegue com um belo tiro, após um pé no saco do infortunado.
A única novidade do filme é levantar o problema da água. O bandidão não quer petróleo nem cocaína. Quer represar os rios da Bolívia para dominar a distribuição de água, metáfora de uma OPEP aquática de nível internacional. Acaba morrendo no deserto, bebendo diesel e dando dois tiros na cabeça.
O ritmo da violência se impôs à literatura, aos roteiros, ao cinema e à televisão de forma irreversível. Não sei o que eles colocarão na tela no próximo 007. Aliás, nem mesmo sabemos o que se colocará na vida nesses anos de crise.
enviada por Jorge da Cunha Lima
08/11/2008 19:58
PABLO ROSSI - O PRIVILÉGIO DE OUVIR
A LIBERDADE DO INTÉRPRETE
Geralmente os grandes intérpretes programam suas audições com anos de antecedência e fiéis a um repertório pré-estabelecido.
Os concertos contemporâneos da CPFL CULTURAL mudaram a prática. Coloca-se no programa, para o público uma série de obras escolhidas pelo intérprete. Na horinha da apresentação, o pianista, no caso de Pablo Rossi, escolhe a música que mais lhe inspire no momento.
Pablo Rossi, jovem de 19 anos, de Santa Catarina, não é um pianista qualquer. Athur Netrovski me contou que uma vez, com apenas treze anos, ele apareceu num concerto com bermudas e uma descontração quase infantil, até sentar-se ao piano. Então foi aquela revelação.
Quando me sentei, no dia 4 de novembro, no auditório do Maksoud Plaza, apesar das referências do curador João Marcos Coelho, desde a primeira interpretação, percebi que estava diante de um gênio promissor. Pablo escolheu o Concerto Italiano de Bach. Tocou com gravidade e clareza, a lembrar, sem que eu exagere, a introversão transitiva de Glenn Gould. O público, cujo mais da metade não o conhecia, aplaudiu com um calor pasmo. Depois ele interpretou Villa Lobos, que tem uma graça tão exposta quanto rigorosa. Saiu-se com garbo. O aplauso engordou.
Escolheu de Shostakovitch quatro peças da dança das bonecas. Um primor de timbres e melodia. Os longos dedos de Pablo Rossi dançavam sobre o teclado produzindo maravilhas. O aplauso disparou e não parou mais.
Foi um prazer ouvir o compositor Radion-Chedrin, russo contemporâneo, influenciado pelo jazz, com uma dicção pianística pessoal e arrebatadora. O jovem Rossi se excedeu em virtuosismo. A grandiloqüência, à Lizt, esteve presente. Mas, foi com a escolha e a interpretação do andante e da polonaise brilhante de Chopin que o jovem gênio se revelou inteiramente. Foi dos grandes prazeres estéticos que senti nesta temporada tão rica de concertos e exposições.
Pablo Rossi está marcado para seguir os passos não superados de Nelson Freire. Acresce a isso o rigor intelectual , nele, precoce, de Glenn Gould e o vigor do Lizt intérprete. O que mais a CPFL precisaria apresentar?
enviada por Jorge da Cunha Lima
07/11/2008 14:11
O CONDE DE MONTECRISTO
ROTEIROS & ROTEIROS
Passamos três dias num seminário organizado pelo MINC para criar parâmetros necessários ao desenvolvimento do projeto MAIS CULTURA. Esse projeto vai fomentar a produção independente de dramaturgia para a televisão pública.
Todos nós sabemos que a dramaturgia é uma coisa difícil, mesmo para as televisões comerciais, porque requer um processo produtivo rigoroso, recursos razoáveis e, sobretudo argumentos com algum conteúdo e bastante comunicabilidade.
Diretores das maiores produtoras nacionais, juntamente com presidentes das emissoras públicas de televisão, gerentes do segmento áudio visual do Ministério da Cultura, técnicos e artistas convidados, discutiram a questão a fundo em dias seguidos.
Foi um banho de conhecimento e dúvidas, capaz de suscitar algumas conclusões simples. Uma delas é de que roteiro é fundamental. O Brasil precisa investir em roteiristas e as televisões não podem produzir dramaturgia com maus roteiros. Um roteiro precisa produzir emoção, prazer e também algum riso. Precisa compor com clareza as personagens. Precisa de boas histórias alicerçadas em um diálogo que lhes dê crédito. Precisa de conceitos condutores da ação dramática. Enfim, o que mata ou consagra um projeto de dramaturgia é o roteiro.
Por acaso, num fim de semana da semana do seminário, assisti a um velho filme consagrado por tantas gerações: O CONDE DE MONTECRISTO. Em apenas duas horas de exibição, vi a demonstração clara do que é um roteiro bem construído. Alexandre Dumas foi um dos grandes ficcionistas do Século XIX, principalmente no segmento aventura. Suas histórias têm conceito e ação. Suas personagens são seres morais, como os espectadores em geral o são. O filme envolve e nos torna cúmplices de um destino. Só isso já vale como lição de roteiro.
enviada por Jorge da Cunha Lima
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